Diretora de RH do Grupo Savegnago, Jaciani Rizzioli, apresentou a experiência da rede, que já implementou o modelo 5×2 em 95% das lojas
A adoção da escala 5×2 no varejo alimentar segue como um dos temas mais debatidos do setor este ano. Entre ganhos operacionais e preocupações com custos e segurança jurídica, o assunto exige análise cuidadosa e decisões baseadas em dados.
Em reunião integrada dos Comitês Jurídico e Gestão de Pessoas da Associação Catarinense de Supermercados (Acats), realizada nesta sexta-feira (27), a Diretora de RH do Grupo Savegnago, Jaciani Rizzioli, apresentou a experiência da rede, que conta com 14.500 colaboradores e já implementou o modelo em 95% das lojas. A conversa foi mediada pela Assessora Jurídica da Associação, Drª. Regina Almeida de Queiroz.
De acordo com Rizzioli, a decisão não foi impulsiva. O Grupo passou dois anos estudando cenários, avaliando impactos jurídicos, estrutura de custos, cultura organizacional e modelos praticados no Brasil e no exterior. O ponto de partida foi a percepção de que as escalas tradicionais já não respondiam com a mesma eficiência às novas demandas do mercado e à crescente dificuldade de atração e retenção de profissionais.
“Quem tem que definir a escala é o cliente”, afirmou Jaciani, ao destacar que o dimensionamento das equipes precisa acompanhar o fluxo e o comportamento de consumo. Para ela, a jornada deixou de ser apenas uma pauta de Recursos Humanos e passou a integrar a estratégia do negócio.

Os números apresentados chamaram a atenção. Após o piloto e a expansão do modelo, a empresa registrou redução de 11% no número de pessoas alocadas nas lojas e aumento de 6% na hora efetiva trabalhada. Houve queda significativa nas horas extras, diminuição de despesas com vale-transporte e redução de custos com refeição. A reorganização também contribuiu para a redução do absenteísmo e do turnover, além de tendência de queda nos acidentes de trajeto, já que há um dia a menos de deslocamento na semana e não há necessidade de saída para o almoço.
A redução do tempo de intervalo, segundo a executiva, partiu de demanda dos próprios colaboradores, que desejavam passar menos tempo fora de casa. Como resposta, a empresa implantou refeitórios nas lojas, eliminando o tempo de deslocamento para almoço. Clientes também passaram a registrar feedback positivo após a reorganização das equipes.
Apesar dos resultados, o alerta jurídico foi enfático. A construção da escala 5×2 exige controle rigoroso para evitar passivos trabalhistas. Situações como descumprimento do intervalo mínimo de 24 horas entre jornadas ou falhas no controle de horas extras podem gerar riscos. Como medida preventiva, o Grupo Savegnago passou a estruturar suas escalas sempre iniciando na segunda-feira, e não no domingo, garantindo o descanso semanal legal.
Durante a mediação, a Assessoria Jurídica da Acats ressaltou que inovação e criatividade são legítimas desde que respeitem rigorosamente a legislação trabalhista. No caso do Savegnago, a implementação apresentada não implicou precarização de direitos nem exigiu acordo coletivo específico, por estar dentro das 44 horas semanais previstas na CLT. A empresa manteve diálogo transparente com as entidades sindicais e reforçou a necessidade de planejamento técnico e controle rigoroso da jornada para evitar passivos, como no caso do intervalo mínimo de 24 horas e do acompanhamento de horas extras.
A empresa utiliza sistemas inteligentes e Inteligência Artificial para organizar as jornadas, mas mantém ajustes manuais para assegurar conformidade e equilíbrio operacional. O planejamento detalhado foi apontado como fator decisivo para os resultados obtidos. Ao sintetizar o posicionamento adotado pela rede, Jaciani destacou: “Quem planeja não aumenta custo, aumenta competitividade.”
O debate, no entanto, permanece aberto no setor supermercadista. Especialistas ressaltam que os impactos da escala 5×2 variam conforme porte da empresa, perfil regional de consumo, convenções coletivas e estrutura tecnológica disponível. A experiência apresentada não se coloca como modelo universal, mas como estudo de caso baseado em indicadores próprios.
Ao promover discussões técnicas, com mediação jurídica e compartilhamento de dados concretos, a Acats amplia o repertório dos supermercadistas e contribui para decisões alinhadas à realidade de cada operação.