Há algum tempo venho observando como as distorções na comunicação dentro das empresas adoecem as pessoas. Ao longo da minha trajetória, mentorando líderes e oferecendo capacitação em inteligência emocional desde 1995, percebi crescerem conflitos desnecessários, quase sempre alimentados por comportamentos do Ego Infantil — vitimizações e culpabilizações — ou do Ego Adolescente — disputas, panelinhas e competitividade desleal. São dinâmicas que esvaziam o engajamento.
A falta de processos, de clareza de propósito e de lideranças inspiradoras intensifica esse cenário. Eu costumo dizer aos nossos clientes: “Só muda o CNPJ”. Vejo essas situações repetirem-se entre empresas dos mais diversos setores.
Com a nova NR1, que incorporou a gestão de riscos psicossociais, ficou ainda mais evidente quanto ambientes hostis e relações desbalanceadas elevam o estresse. Hoje, o líder precisa lidar com suas próprias emoções e ainda administrar equipes que muitas vezes chegam emocionalmente imaturas ao mercado. A alta conectividade e as fragilidades familiares contribuíram para formar jovens que, em muitos casos, não desenvolveram repertório de comunicação.
Mas culpar líderes, empresas, famílias ou jovens nos coloca direto no Ego Infantil. Quando fazemos isso, acionamos redes neurais que nos levam para a vitimização e para a dificuldade de encarar conversas difíceis. O caminho que defendo é outro: acionar o Ego Adulto. É ele que busca capacitação, assume responsabilidade e constrói relações colaborativas. Como sempre digo, criança reclama; adulto resolve.
Atendo muitos profissionais extremamente competentes, mas que não tinham consciência do quanto sua comunicação era agressiva ou abusiva. Repetem falas generalizantes como “ninguém quer nada com nada” ou “se eu não falar assim, não funciona”. Quando conseguimos mostrar outras lentes, o comportamento começa a mudar e isso transforma equipes.
A verdade é que conflitos ganham força onde há baixa autoestima, síndrome do impostor, Ego Infantil e Ego Adolescente. Some a isso índices alarmantes de desengajamento, absenteísmo por questões emocionais, rotatividade causada por climas organizacionais frágeis e processos trabalhistas originados por liderança imatura. Tudo volta ao mesmo ponto: comunicação.
Acredito que a solução passa por desenvolver formas de comunicar a partir de:
● Ego Adulto: fala transparente, objetiva, validante.
● Ego Maduro: alinhamento com missão, visão e valores.
● Cultura Validadora: foco nas forças da equipe.
● Autoestima e poder pessoal: bases de uma comunicação segura.
● Programas de saúde mental, NR1 e liderança humanizada.
Quando treinamos colaboradores e líderes sobre comunicação, a cultura muda. Pessoas entendem melhor seu papel, engajam mais e se sentem valorizadas. Líderes conscientes engajam equipes e equipes engajadas fortalecem resultados e a vida de cada pessoa no seu contexto social.
Meu sonho é ver mais empresas aplicando uma prática simples e transformadora: aprender a ler a legenda do outro. Quando entendemos a intenção por trás das palavras, conflitos se dissipam e relações ficam mais leves.
Meu voto segue o mesmo: por mais Ego Adulto nas comunicações.
Fabricia Machado
Psicoterapeuta Somática, CEO do Instituto Rennove e Instrutora confirmada no Programa de Desenvolvimento Gerencial da Acats 2026.