A sucessão familiar é um dos momentos mais delicados e estratégicos na vida de uma empresa, especialmente no setor supermercadista, onde a maioria dos negócios nasceu de empreendimentos familiares que, com muito trabalho, dedicação e visão empreendedora, conquistaram espaço e reconhecimento no mercado.
Essa transição, que muitas vezes envolve a passagem do comando de uma geração para outra, vai além da simples transferência de cargos ou quotas societárias. Trata-se de um processo complexo, que exige planejamento, diálogo e cuidados para que o legado construído ao longo dos anos se mantenha e se fortaleça diante dos novos desafios do mercado.
Muitos empresários adiam o início dessa discussão por receio de gerar conflitos ou pela falsa sensação de que há tempo de sobra para pensar no assunto. No entanto, a experiência mostra que, quanto mais cedo se inicia o planejamento sucessório, maiores são as chances de uma transição harmônica e bem-sucedida.
A preparação antecipada permite que todos os envolvidos conheçam e compreendam seus papéis, que expectativas sejam alinhadas e que decisões importantes sejam tomadas de forma racional, evitando soluções improvisadas que podem comprometer a saúde financeira e a estabilidade do negócio.
Outro aspecto essencial nesse processo é a adoção de mecanismos de governança corporativa. Em empresas familiares, é comum que as relações pessoais se confundam com as relações profissionais, o que pode dificultar a tomada de decisões estratégicas. A criação de um conselho consultivo ou administrativo, com regras claras e participação equilibrada de familiares e, quando possível, de profissionais externos, contribui para a profissionalização da gestão. Isso permite que as decisões sejam guiadas por critérios técnicos e pela visão de longo prazo, que vão além de questões emocionais ou interesses momentâneos.
Do ponto de vista jurídico e tributário, o planejamento da sucessão é igualmente indispensável. A ausência de medidas prévias pode resultar em elevados custos fiscais, disputas judiciais entre herdeiros e até mesmo no enfraquecimento do negócio.
Estratégias como a constituição de holdings familiares, a realização de doações com cláusulas protetivas e a reorganização societária podem trazer benefícios significativos, mas devem sempre ser estudadas à luz da legislação vigente e das peculiaridades de cada empresa.
Preparação dos sucessores – A preparação dos sucessores também merece atenção especial. Além de estar tecnicamente apto, aquele que assumirá a liderança precisa estar emocionalmente preparado para o desafio. Isso envolve formação acadêmica, vivência prática em diferentes áreas do negócio e o desenvolvimento de habilidades de liderança e negociação. A Acats saiu na frente nesse sentido, com a criação do Comitê Sucessores, que permite aos futuros gestores uma vivência prática que permite uma experiência muito próxima da real. Mais do que herdar um título ou um cargo, o sucessor precisa conquistar o respeito da equipe, dos fornecedores e dos clientes, mostrando-se capaz de manter a competitividade e a cultura organizacional que fizeram da empresa um sucesso.
Todo esse processo deve ser conduzido com comunicação clara e transparente, tanto entre os membros da família quanto com os colaboradores e parceiros de negócios. Mudanças na liderança podem gerar incertezas, e a forma como elas são comunicadas influencia diretamente a confiança de todos os envolvidos. Uma transição bem planejada e bem comunicada preserva a credibilidade construída ao longo de anos de trabalho e transmite ao mercado a mensagem de que a empresa está preparada para continuar crescendo.
A sucessão familiar no setor supermercadista é uma etapa inevitável e uma oportunidade estratégica de consolidar e expandir o legado de uma família empreendedora. Com planejamento, governança, atenção aos aspectos jurídicos e tributários, preparo dos sucessores e uma comunicação eficaz, é possível transformar esse momento de mudança em um passo firme rumo ao futuro, garantindo que os valores e a história que marcaram o passado se mantenham vivos nas próximas gerações.
Manuella Mazzocco
Advogada especialista em Direito Tributário
Sócia do Rossetto Advogados