Você está em Acats • Conteúdo

Análise: Até onde o promocionamento gera vantagem?

promocao

A Associação Catarinense de Supermercados (Acats) abre espaço para uma discussão de um tema que é bem relevante no dia-a-dia das operações de supermercados, o promocionamento. Até onde ele é benéfico? Qual a dosagem ideal? Quais os principais cuidados com o uso das promoções para não prejudicar a rentabilidade do negócio? São dois especialistas em varejo e parceiros da Entidade que participam desta discussão,  Fátima Merlin e Paulo Magnus.

Fatima Merlin

A promoção é uma ferramenta de grande impacto positivo, promissora para atrair e converter clientes (gerar trafego e fluxo de caixa), para gerar compras por impulso e para elevar o tíquete médio.

Mas ainda hoje há muitas promoções que são mal planejadas e mal executadas.

Na perspectiva do shopper as ofertas são bem recebidas, já que significam encontrar produtos por preços mais baixos dos usuais, estimulando a compra. Mas, na prática, significa também, em muitos casos, acumular em casa quantidades muito maiores do que as tradicionalmente adquiridas sem ofertas, afetando a dinâmica de compra e com impacto nos resultados do varejo e fabricantes que não podem ser negligenciados.

Na maioria das categorias de largo consumo, limpeza, cuidados com a roupa, por exemplo, normalmente as mais envolvidas em atividades promocionais, embora ocorram estímulos para aumento do volume comprado, não há aumento da quantidade consumida no lar, assim, a venda de maiores volumes resultará em redução das vendas futuras (antecipação da demanda), até que os estoques acumulados pelo consumidor sejam utilizados;

Outro ponto que não podemos negligenciar é que a oferta de produtos em promoção a preços menores do que os usuais, mostra ao Shopper que é possível vender os produtos a preços diferentes dos regulares, dando-lhe a impressão de estar sendo explorado quando paga o preço cheio, e estimulando a crescente busca de promoção.

Veja dado publicado em uma pesquisa sobre o tema, onde as ofertas desnecessárias – quando o produto teria sido vendido mesmo com preço normal – somaram R$ 11 bilhões em 2015. E se fosse um supermercado, as “promoções desnecessárias” seriam a quarta maior empresa do setor supermercadista, segundo esta mesma pesquisa.

No quadro abaixo, podemos observar o percentual do volume vendido a partir de ofertas, que teria sido comprado pelo consumidor mesmo sem o preço ter sido reduzido.

Percentual do volume vendido com ofertas que teria sido comprado pelo shopper mesmo sem redução de preço

Limpeza caseira 85%
Bebidas não alcoólicas 82%
Higiene e beleza 75%
Mercearia 73%
Bebida alcoólica 59%

Fonte: Nielsen – adaptado de Supermercado Moderno

 

Voltando aos temas que não podem ser negligenciados, um dos mais relevantes é de quem comprou o produto com o preço regular e na sequência o encontra com um preço inferior, sente-se decepcionado. Da mesma forma que aquele que vai à loja atraído por um anúncio (folheto, propaganda), e quando chega ao ponto de venda e não encontra o produto (ruptura) ou o produto acabou, ou a promoção terminou, fica a sensação de ter sido enganado.

Se ruptura já é crítica em se tratando da venda de produtos regulares, imagina a frustração de um cliente ao chegar em uma determinada loja, atraído pela oferta ou promoção, e não encontrar o que queria.

O fato é que, por todo o exposto acima, e pelo fato de que nos últimos anos o mercado se tornou excessivamente “promocionado”, o que “commodotizou” as ações, tornando as promoções muito parecidas e repetitivas – garantia do menor preço, descontos, cartão fidelidade, preço 2, leve mais pague menos, brindes, entre outros, há perdas gigantescas – financeiras, operacionais e, em muitos casos, até de impacto na própria imagem.

Fazer promoções apenas porque o concorrente está fazendo, investir em tabloides cada vez mais volumosos, com dezenas de itens a cada semana, até eventualmente pode contribuir para aumentar volumes, mas acaba por “corroer” a margem – não sendo incomum que sejam até negativas, significando que cada unidade vendida reduz o resultado do varejista, trazendo efeitos danosos ao negócio e, em muitos casos, desgasta até mesmo a imagem da empresa”

Fabricantes e varejistas possuem uma longa lista de experiências negativas para contar sobre a execução de promoções, incluindo temas como rupturas, super estoques, displays que não foram montados conforme o previsto, materiais promocionais que sumiram ou não chegaram a tempo, ou ainda, que ficaram danificados, lançamentos que foram amplamente divulgados na mídia, mas que não foram entregues em tempo hábil pelos fabricantes, para citar algumas ocorrências.

Acrescenta-se ainda o fato de que muitas ações são executadas sem o devido monitoramento, ou seja, sem que os resultados sejam medidos de maneira efetiva para entender qual o benefício quantitativo e qualitativo obtido.

Fica evidente que o uso intenso e discriminado de promoções que não sejam respaldadas por estratégias e táticas muito bem fundamentadas, podem levar, conforme já salientei, a perdas financeiras, mas sobretudo, à deterioração da percepção de valor das marcas da indústria e da imagem de posicionamento de preço do varejo.

O que precisa ser feito para maximizar os efeitos das promoções e ofertas:

Maior aprofundamento sobre os tipos e aspectos das promoções e clareza das diferenças entre ambas;

Visão estratégica sobre as promoções e ofertas;

Planejamento e processo – o que fazer, por que, para quem, por quem, quando, como, qual o resultado esperado;

Clareza no propósito e objetivo: muitos fazem simplesmente porque o concorrente está fazendo;

Olhar geral sobre a categoria: normalmente concentra-se na promoção / oferta do produto em si, sem pensar na solução ou na categoria;

Conexão das ações com o papel e estratégia da categoria – por exemplo, o varejista tem como estratégia gerar margem incremental mas faz uma oferta com rebaixa de preço;

Métricas e mensuração para avaliar performance e efetividade das ações;

Informações e análises para apoio no desenvolvimento das ações;

Real orientação aos shoppers-alvo;

Comunicação entre as áreas;

Efetivo planejamento da demanda: para evitar os índices de rupturas e/ou super estoques nos produtos promocionados;

Regras claras para as ocasiões em que tiver faltas de produto (rupturas) ou super estoques. Ex: no caso de ruptura, haverá substituição por outro item de igual valor, e no caso de super estoque, será rebaixa de preço, devolução, ou o que?

 

Paulo Magnus

Com o aumento da competitividade, globalização, queda do poder aquisitivo, e o advento da globalização no passado, que trouxe os produtos importados para o mercado nacional os supermercados, mesmo aqueles que tem foco no serviço e não em custo, vem adotando uma estratégia de preço altamente competitiva, incentivando a verdadeira guerra de preços no varejo supermercadista.

Isto e bom ou ruim?

Guerra de preços no varejo nunca é boa, principalmente quando esta prática é uma estratégia isolada, mesmo que contemple somente os produtos de commodities, o tão falado pesadão, cesta básica, rancho, produtos de combate ou de necessidade do cliente.

Vejamos, a margem de contribuição media do varejo supermercadista para supermercados que não são fortemente posicionados no preço gira em média na faixa de 28 a 30% no mix de produtos da loja.

Bem verdade que esta mesma média, quando o mercado e fortemente posicionado em preço, cai para uma faixa de margem de contribuição que fica entre 16 e 20%.

Não obstante a este fato, alguns supermercados não têm uma estratégia de repasse associada a estratégia de rebaixa e quando isto acontece, em algum momento a loja pode auferir um lucro menor, na grande maioria das vezes em que esta ação não é compensada pelo aumento do volume de vendas destes produtos.

Ainda temos outra situação não menos ruim do que esta quando não aproveitamos melhor o aumento do número de shoppers e clientes no ponto de venda, por uma razão muita primária e ao mesmo tempo simples, onde deixar de ganhar também é perder.

Mas afinal, esta estratégia em algum momento pode fazer aumentar margem de contribuição média das categorias?

A resposta é sim.

Esta é uma boa estratégia desde que a sua implementação seja acompanhada por um conjunto maior de ações, táticas e operação e que seu acompanhamento, monitoramento e avaliação tenha como como alicerce a aplicação de metodologia compatível e conjunto de ferramentas competitivas.

Alguns passos importantes para transformar esta estratégia que normalmente vende mais quantidade em uma estratégia competitiva que privilegie o aumento da qualidade, ou seja, do resultado bruto e do lucro líquido.

 

1 Tire uma curva ABC de produtos por departamento;

 

2 identifique o universo de produtos de cada seção que represente de 20% a 30% da quantidade física e pelo menos 60% do faturamento. Cada empresa irá achar o seu ponto de corte;

 

3 Vá para a concorrência e faça um shopping de preços utilizando preferencialmente o comprador que conhece o universo das variáveis de segmentação e do mix de marcas;

 

4 Defina os produtos que serão rebaixados e os produtos que serão repassados utilizando novamente a classificação ABC, rebaixando preferencialmente aqueles que são commodities, produtos de necessidade e repassando para os produtos de vontade e desejo do cliente, ou seja, produtos de classificação B e A;

 

5 Lance os produtos de rebaixe e repasse e defina o novo preço de venda com a utilização de ferramenta compatível e competitiva que irá sinalizar a efetividade financeira da estratégia, mostrando na compensação e cruzamento destas ações um número positivo ou negativo mantendo mesmas quantidades de venda física dos produtos visualizados no período anterior;

 

6 Envolva gestores nas estratégias e táticas do composto de marketing, Produto, Preço, Praça e Promoção e a operação na execução das ações necessárias, todos têm que estar alinhados com o objetivo e comprometidos com os resultados.

7 Acompanhe, monitore e avalie sistematicamente e faça uma correção de curso sempre que necessário, repensando estratégia, tática e ou ação.

Assuntos
Outros conteúdos que podem ser do seu interesse
Conteúdos relacionados
Presidente Executivo

Alexandre Simioni

À frente do Grupo Passarela, uma das maiores redes supermercadistas de Santa Catarina e entre as 50 do Brasil, Alexandre Simioni lidera um time de mais de 3 mil colaboradores em 21 lojas distribuídas por 17 cidades no estado de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. A missão é transformar a experiência de compras, oferecendo qualidade, preço justo e inovação.

Sua trajetória profissional combina uma formação em Administração de Empresas com especializações no segmento supermercadista, garantindo uma visão estratégica e operacional para enfrentar os desafios desse setor dinâmico.

Atualmente, além de presidir o Grupo Passarela, é presidente da Associação Catarinense de Supermercados (Acats) para o biênio 2025/26 e atua como conselheiro na Associação Brasileira de Supermercados (Abras), contribuindo ativamente para o avanço e fortalecimento do setor.

Acredita no poder da inovação, na força das pessoas e na importância do varejo para o desenvolvimento econômico.

FOTO - ALEXANDRE SIMIONI
Presidente Executivo

Nome do Profissional Completo

Informações
Veja também
Presidente do Conselho Diretor

Paulo Cesar Lopes

Presidente do Grupo TOP, com mais de 40 anos dedicados ao desenvolvimento do varejo supermercadista, Paulo Cesar Lopes é bacharel em Administração de Empresas pela FURB (Universidade de Blumenau), com MBA em Gestão Empresarial pela FGV (Fundação Getúlio Vargas).

Além de CEO do GTOP, é Presidente do Conselho Diretor da Acats, Vice-presidente da Abras (Associação Brasileira de Supermercados) e Presidente da SINGAVALE (Sindicato dos Supermercados do Vale do Itajaí).

Participa de eventos e congressos nacionais e internacionais, realiza visitas técnicas em supermercados modelos no mundo inteiro para identificar tendências, novidades e oportunidades de negócio.

Se dedica ainda a relações institucionais com o Poder Público para encontrar soluções e traçar planos direcionados ao desenvolvimento do varejo supermercadista no Brasil.

FOTO - PAULO CESAR LOPES - CANVA - A
Presidente Executivo

Nome do Profissional Completo

Informações
Veja também